quinta-feira, 22 de novembro de 2012

crônica da DUDA- Vizinhança

Vizinhança Por: Laura Cardoso( Duda Azeredo) Vizinhos. Não conheço ninguém que não saiba uma boa história sobre eles, que seja destes que se acostumam a pedir xícara de açúcar na porta e se tornam futuros maridos ou esposas de quem morava sozinha, que seja os que nunca devolvem a famosa xícara, mas estão sempre fazendo questão da mesma, que seja os que abrem suas correspondências e pegam suas revistas assinadas “sem querer” todo dia, conversam com suas visitas no hall de entrada, andam pelo corredor de camisola e com uma garrafa de cerveja na mão, que fazem comidas horrorosas que deixam o cheiro impregnado em você o dia todo, aquela que adentra sua casa todo dia pra comentar de todas as tragédias do Jornal Nacional e não dá desconto nem nos domingos, a síndica (que nem precisa de muita explicação) e os mil tipos estranhos. Mas o pior vizinho ainda não foi apresentado, este sim é uma criatura do fim do mundo, ou melhor, uma criatura: a famosa vizinha que ama falar da vida alheia e que de tanto fazer uso do mesmo, parece que o binóculo faz parte do corpo. Esta, obviamente nunca mora no seu prédio e por isso não dá nem pra tentar passar qualquer tipo de indireta na reunião de condomínio, é sempre naquele prédio da frente que você não conhece ninguém e se Murphy realmente existe ela vai morar na mesma altura que sua janela. Segunda-Feira de manhã o prédio desperta, eu, já acostumado com meus vizinhos que estão mais pra inquilinos, enrolo mais dez minutos na cama pra dar tempo do gordinho do 302 contar quantas contas tenho que pagar, ler as manchetes dos jornais que assino e dar uma olhadinha na capa da revista que sai sempre no começo da semana. Abro a porta de casa e lá está ele correndo rapidinho pra dentro de casa assim que ouviu o barulho das minhas chaves na porta... Esperto. Mal fecho a porta entra a velhinha da frente com cara de quem morreu e ressuscitou trezentas vezes durante a noite dizendo: Você viu Mário? Mais um motociclista atropelado aqui na frente, coitado... você sabe que meu sobrinho morreu atropelado? Faz um tempo, foi pra lá de madureira ( blá blá blá, lá vinha a famosa contadora de tragédia, tudo que passa na televisão tem ligação com a família dela, já se morreu de tudo quanto é jeito ali.) Né, Mário? Como sempre ela me fazia uma pergunta depois de relatar tudo e eu que já nem lembrava qual a tragédia de hoje apenas respondia: pois é... Estou atrasado para o trabalho, mais tarde nos falamos. Seis e meia da manhã e eu já lidei com gente lendo minhas coisas e contando tragédia, credo... Fecho a porta e entro em casa pra tomar meu café antes do trabalho. Não sei se contei, mas sou escritor e trabalho em casa, mas como fico trancafiado o dia todo no escritório, quando digo que vou trabalhar a vizinha morfinástica (é, aquela ali já recebeu tudo quanto apelido que tenha qualquer ligação com morte, embalsamada, formolina...) me dá certo sossego. Mas é claro que não acabou, quando sento em frente ao computador para ler os emails e abrir as contas fatídicas que me foram deixadas na porta de manhã batem na porta. Eu até já sei quem é, o folgadinho de 15 anos do 501, filho da síndica... Agora vocês entendem o motivo de sempre dar xicarazinha de açúcar aqui e ali pro menino, não quero surpresas nas contas de condomínio como já vi essa louca fazer com tantos... o gordinho leitor, coitado, negou um cafezinho pro marido dela e pronto, foi surpreso ao ser cobrado por ter escorregado no canteiro devido ao fato de ser completamente estabanado e quebrado um pedaço dos tijolinhos que o sustentavam, a síndica não era carrasco de ficar cobrando por tudo, ao menos que você negasse qualquer coisa a ela e qualquer membro de sua família, caso isso acontecesse, tudo era motivo pra mais 10 reais que fossem em sua conta de condomínio. Enfim, o pentelho dessa vez queria minha revista para fazer uma colagem para o colégio, não se contentou com a da semana passada, disse que sua professora havia ensinado como era bom ser uma pessoa atualizada, tentei explicar dizendo que nem tinha lido aquela ainda e que a anterior era só de uma semana atrás, mas não adiantou, não querendo problemas com a louca, dei mesmo assim e fechei a porta na cara do guri que saiu com um sorrisinho sarcástico. Finalmente sentado, pensei. Comecei a ler a caixa de emails, mãe pedindo notícias, ex-mulher pedindo dinheiro e claro, o “convite” para a reunião de condomínio de tarde. Mal via a hora de começar a responder... Lá estava ela, com seu binóculo mirando direto na minha janela, fechei à persiana e continuei meu último conto. Pude ouvir o barulho no andar de cima, onde o casal apaixonado de vizinhos conversava tudo quanto é coisa em alto e bom tom (Eles se conheceram quando ela resolveu pedir uma xícara de açúcar na casa dele, é sério, sem brincadeira). Era um saco, ficavam namorando o dia inteiro pelos corredores e ficavam de “momozi” pra cá e “minha linduxinha” pra lá, haja paciência... Tentei dar um grito pela janela pra ver se paravam de falar tão alto, mas me irritei ao ver que a velha enxerida ainda estava lá com seu binóculinho, mirando agora o casal. Não sei quanto tempo fiquei escrevendo depois daquilo, mas precisei de ajuda de música pra “silenciar” o local. Bateu o sino da igreja que anunciava meio-dia e eu resolvi comer na rua pra variar, na portaria como sempre a vizinha hippie já estava lá conversando com o porteiro com sua camisola tie die e sua Skol litrão, aquela é outra que não dá pra ter paciência, não pode chegar ninguém pra me visitar e a cena é a seguinte: Bom dia/tarde/noite você pode interfonar pro Mário? E ela vinha: Máaaario, você vai visitar o máaaaario, diga que mandei uns incensos pra ele e ele se esqueceu de pegar como sempre, qual o seu nome? De onde você veio? Como veio? Vem sempre? E todos entravam lá em casa com os ouvidos vermelhos de tanta pergunta pra digerir. Fui almoçar e pude ver a vizinha do binóculo seguindo meus passos até o restaurante, e seguindo a hippie pelo elevador panorâmico lá do prédio. Voltei uma hora depois e já me lembrei de usar as escadas, nesse horário o elevador fica empesteado de um cheiro de curry do indiano da cobertura, eu odeio curry com todas as minhas forças então fugia daquilo como o diabo foge da cruz, desde a primeira vez que aquele cheiro impregnou em meu nariz ( dois anos atrás, quando me mudei pro hospício que chamo de meu prédio) eu fugia daquele elevador nesse horário. Já havia reclamado mil vezes naquela reunião de condomínio inútil de todo mês, mas o homem alegava aspectos culturais e blá blá blázZzzZZzzZ... Não bastava o elevador, ele fede a curry, seu cachorro fede a curry, seus filhos, seus livros, seus sapatos, seus tapetes, suas chaves, e todos os lugares por onde ele passava e nada podia alegar por aspectos culturais... Aquilo me deixou com mais raiva que o comum no dia de hoje e resolvi entrar no apartamento logo e usar pela primeira vez os tais incensos da hippie cervejeira. Quando entrei a Senhora tragédia grega estava lá, contando pra minha ex- mulher que alguém da família tinha morrido ao aspirar um pólen venenoso de uma flor, coisa que Mirian (sim, minha ex) carregava em mãos. Mirian já havia se acostumado com dona recheio de caixão e apenas sorria e acenava. Perguntei o motivo da visita inesperada (visita de ex é sempre inesperada, inoportuna e extremamente perturbadora) e ela começou a questionar minha vida do começo ao fim, como andava o trabalho, o livro, se eu tava comendo direito, saindo... Revirei os olhos e fui entrando na cozinha pra pegar um suco de frutas. Mirian me seguiu falando, falando e falando. Ela ainda “morava” comigo, mas nunca dormia em casa, estávamos separados no papel e na conversa, mas mantínhamos uma relação boa, tudo pra poupar complicações, mas tendo em vista que ela vivia tentando controlar minha vida mesmo separada, não tenho certeza se minha bandeira branca funcionou muito bem. E enquanto ela continuava falando eu pude observar ela, a senhorinha e seu binóculo, apenas observando. Será que ela tinha como ouvir? Tem louco pra tudo. Mirian já estava reclamando da minha distração quando me lembrei de que poderia ser salvo pelo gongo das três horas da tarde, hora da reunião de condomínio. Sim, até o horário das reuniões era péssimo nesse prédio. Dei adeus pra Mirian e saí correndo dali, enquanto a vizinha enxerida me seguia pelo elevador panorâmico novamente, parecendo que já sabia que eu estava indo para a sala de reuniões, que ficava perto do salão de festas. Quando entrei no salão percebi que ninguém estava ligando muito pra horário ou pra seriedade, aquilo ali parecia uma festa infantil, tinha salgadinho, suquinho, doces e bolos na mesa para o fim da reunião, mas já estavam todos comendo quando cheguei. A síndica esperou um tempo e iniciou falando sobre a manutenção nos elevadores que seria feita essa semana e que, portanto, não poderíamos usá-lo de meio-dia às três da tarde. O indiano já protestou, disse que na sexta-feira teria uma festa de família em casa e que teria que receber pessoas nesse horário e que não queria problema nos elevadores, a morfinácea (é, gostei desse apelido!) começou a narrar acidentes com elevadores e o caso de sua tia de Bauru que foi esmagada por um, o pessoal já tava ficando chocado, quando interrompi e disse que era só marcar outro dia. Fui ovacionado, parecia a coisa mais lúcida que tinham ouvido na vida e funcionou, a síndica marcou pra outro dia e o indiano me deu um abraço tão forte que acho que o curry entrou fundo em meus poros e nunca mais sairá. Fiquei meio perplexo por uma observação tão óbvia ter sido acatada com tanta devoção, mas fingi achar normalíssimo, como sempre. Depois foi a vez de decidirem sobre como seria o Carnaval no prédio, não resisti e tive que rir, pra mim aquilo ali era carnaval todo dia. Fui pego rindo alto e questionado, já tinha segurado tudo aquilo dentro de mim por tanto tempo que disse o que pensava, disse que só possuía vizinhos loucos que não me deixavam em paz em plena semana de trabalho, que um dia apoiavam uma opinião boba como aquela, coisa que qualquer um poderia ter dito, e no outro me deixavam louco ao discordar de algo normalíssimo que eu havia falado. Que abriam minhas correspondências, entravam na minha casa sem convite, falavam alto, pediam mil coisas, só contavam tragédias, chateavam minhas visitas, empesteavam o prédio... quando dei por mim, estava gritando. Ao terminar meu monólogo, percebi que todos me olhavam com uma cara pavorosa de susto, ficaram assim alguns minutos e foi o bastante para eu me irritar e sair dali direto para o meu apartamento, dando de cara com a vizinha do binóculo entrando na minha portaria. Não perdi a chance e dei um berro pra ela, dizendo que como se não bastassem todos os vizinhos loucos que eu tinha no próprio prédio, ainda tinha que aguentar uma enxerida me olhando todos os dias. O elevador chegou e eu subi pro meu apartamento, desmaiando no sofá e dormindo pelo que pensei terem sido minutos, mas só acordei no dia seguinte. O dia seguinte já tinha despertado estranho, minhas cartas intactas e revistas idem, sem pedidos, sem vizinha chata, sem conversa, sem cheiro... Estava livre! Resolvi dar uma espiada na janela e percebi que a vizinha do binóculo não estava mais lá. Livre, finalmente! Dei centenas de pulos pelo apartamento e até liguei o som um pouco alto, comi meu café da manhã feliz, incluindo nele os morangos que eu guardava para ocasiões especiais. Mas a felicidade durou pouco, o interfone tocou e era o porteiro convocando para uma reunião de última hora. Quase respondi que não iria, mas estava curioso para saber o motivo da quietude do prédio. Dessa vez não tinha lanche e nem pessoas conversando, estavam todos me esperando com uma cara de quem comeu e não gostou, senti que não podia ser algo bom. A síndica me cedeu um espaço e se levantou na frente para começar a falar. Eu só conseguia pensar no conto inacabado que tinha deixado em casa. Para a minha surpresa, ou não, o tema da reunião de hoje era eu. A síndica seguiu dizendo que todos tinham algo a dizer para mim e que inclusive a vizinha da frente viera participar. O que era aquilo? Um motim? A hippie tomou a palavra e começou dizendo que não me entendia, que quando havia me conhecido eu tinha acabado de escrever na coluna de jornal uma crônica sobre incensos falantes, ela havia achado brilhante já que fazia referência a Gandhi, Lennon, Woodstock entre outras coisas que ela gostava tanto. Desde então ela tentava conversar comigo, mas vendo que eu era uma pessoa fechada ela enviava incensos pra ver se eu conseguiria puxar conversa. Sobre as visitas, exatamente por isso. Ela queria saber de mim, saber se era pura antipatia por ela, saber do que eu gostava... Enfim, a achei louca do começo ao fim do discurso, mas menos chata, percebi, inclusive, que não tinha bebido ainda. Depois da hippie, veio a morfinácea, dizendo que aquilo era só uma forma de me alertar, já que eu parecia tão distraído sempre e ela não tinha com quem conversar nunca, era sozinha (claro, tanta gente havia morrido de tanto jeito, que não me admira que ela seja assim), mas só procurava companhia. Me deu até uma ponta de pena mas ainda era morte demais para ingerir, quando disse isso ela inclusive fez menção a diminuir a carga mortífera diária. Seguido dela o casal disse que eu era o único vizinho que ouvia as conversas, mas haviam percebido que eu deixava muitas janelas abertas em casa e por morarem bem acima, realmente não era difícil de acreditar que eu ouvia tanto. Disseram que tentariam diminuir o volume. O gordo se desculpou me dando uma caixa de rosquinhas e dizendo que não tinha motivo certo, tinha essa mania desde pequeno, mas prometeu parar depois de ouvir que eu odiava. Sempre soube que o gordinho não tinha como dar uma desculpa esfarrapada. O menino filho da síndica apareceu correndo e com minha revista em mãos, pediu desculpas e a devolveu. E assim seguiu, o indiano disse que se precisasse colocaria menos tempero e fecharia a porta do corredor quando cozinhasse (agora entendi tudo). E então veio a que eu mais ansiava por explicação, a velha do binóculo. Ela começou dizendo que era fotógrafa, e que na verdade procurava por imagens legais para a câmera nas imediações da rua, não caí muito na história até ela me dar seu cartão e um book de fotos do prédio somente em seus momentos mais felizes. Tinha eu rindo ao celular na janela (coisa que nem me lembrava), o casal se beijando docemente no corredor, a síndica abraçando o filho, a hippie fumando seu cigarro e ouvindo música com um sorriso enorme na varanda, o indiano fazendo um de seus jantares em casa e servindo comida para a família, o gordo comendo um donnut enorme com a namorada linda que ele tinha (sim, a vida as vezes sorri pra gente.).Enfim, eram fotos de momentos felizes e que ela disse que tinha sido seu melhor book, desde então ela procurava tirar parecidas para ver se conseguia vencer este último e levá-lo melhorado para um concurso em New York, mas só nos observava cabisbaixos ultimamente, principalmente eu. Claro que todos do prédio quiseram ver as fotos e adoraram, mas todos concordaram que a vizinha deveria ter pedido permissão. Ela se defendeu dizendo que dessa maneira não haveria espontaneidade nas fotos, e no fundo eu mesmo concordei. Deve ter sido por ter gostado muito da minha foto, eu parecia outro. Não sabia eu, mas a pior parte era agora, todos se juntaram e disseram que eu também tinha uma mania de vizinho. Levei um susto, sempre me tive como o modelo de vizinho perfeito, quieto, não incomodo ninguém. Bom, descobri que tenho mania de observação, estou sempre olhando cada passo de todos e gravando tudo para as reuniões de condomínio, onde no começo eu sempre reclamava e depois de ver que não funcionava, passei a ficar tão quieto que metia medo. Bom, por essa eu não esperava, bem que Mírian já havia me avisado que eu era observador demais, mas nunca tinha levado a sério, nunca tinha levado ela a sério. Saí dali transtornado, mas com uma bagagem de preocupações menor, parecia que um peso havia sido tirado do meu pescoço, cheguei em casa e consegui concluir meu conto, aliás, recomecei ele do zero e criei algo que nunca tinha feito antes, o qual apelidei vizinhos, conto este, que você leitor pôde ler agora. Dediquei para a vizinha hippie e para Mírian, prometendo que levaria suas opiniões a sério a partir de agora. PS: Casei com Mírian novamente, dois meses depois. A vizinha das fotos fez nosso álbum, o indiano a comida (sem curry e tempero forte, para a minha alegria), a síndica reservou o salão do prédio de graça. Morfinácea foi nossa madrinha e descobri que seu nome era Lêda, o casal nos deu de presente um DJ pago por eles, o gordinho comeu todos os doces da festa.